O garoto da balança #1
Acostumado com os 38°C e a rotina pacata do sertão da Bahia, Mateus de apenas 16 anos vê sua vida mudar completamente ao se mudar com a mãe e o irmão.
Que frio faz aqui! Por um breve momento, senti um pouco de saudade da Bahia. Lá, 25 graus já é motivo para usar blusa de frio. Olhei a temperatura no celular e estava marcando incríveis 9 graus. Antes de entrar no supermercado, coloco as mãos no bolso, abaixo a cabeça e entro em busca da seção de legumes. Precisava comprar alguns tomates, pois minha mãe iria fazer nossa primeira janta na nova cidade. Confesso que estava um pouco apreensivo em ir naquele mercado, pois sou da roça. Onde morava, no sertão da Bahia, não tinha grandes mercados, apenas pequenas vendinhas.
Não demoro muito e vejo diversos tomates e outros legumes em uma grande bancada. Olho rapidamente em volta, vejo um rolo de sacos plásticos e deduzo que devia apenas colocar a quantidade que queria ali dentro. Nunca gostei de tomates muito maduros, nem muito verdes. Escolho dois, coloco dentro do saquinho e vou em direção ao caixa. Acredito que passei uns 15 minutos na fila até finalmente chegar a minha vez de ser atendido.
— Boa noite!
Confesso que, de onde eu vim, nunca tinha visto pessoas da minha idade trabalhando assim. Fiquei um pouco surpreso ao ver um garoto aparentemente da minha idade, uns 16 anos, no caixa.
— Boa noite! — respondi, levantando um pouco a cabeça para olhar nos olhos dele.
— Tem que pesar — disse o garoto, com a voz falhada típica da nossa idade.
— Tá bom.
Que droga, o pior é que nem sei onde se pesa isso. Olho em volta e vejo outro adolescente usando o uniforme do mercado, parado ao lado de uma balança. 'Só tem adolescente nesse mercado?' pensei.
— Boa noite! É aqui que pesa? — 'É óbvio que é, para de ser burro Mateus.'— Boa noite! É sim, pow — disse o garoto.
Coloquei os tomates em cima da balança e o menino apertou em alguns botões e rapidamente colocou um adesivo com o preço colado no saco.
— Obrigado.— De nada, pow — falou o garoto, enquanto pegava uma flanela para limpar a mesa.
Volto ao caixa e logo estou na porta de saída. Um vento muito gelado atinge meu rosto. Coloco o capuz, enfio as mãos no bolso e desço os degraus do mercado, tentando refazer o caminho de volta sem ter muita certeza se estou na direção certa.
— Rapaz, que frio é esse — digo fechando a porta da sala.
Gustavo estava deitado no sofá assistindo Dragon Ball Z e mãe estava aparentemente na cozinha mexendo em algumas panelas, a casa ainda estava meia bagunçada devido a mudança, pois chegamos hoje mesmo. Éramos apenas nós 3, Gustavo tinha acabado de completar 2 dígitos de idade e iria começar na escola nova em pouco menos de um mês, todo mundo diz que ele se parece bastante comigo, sua pele morena clara, olhos escuros e cabelos ondulados lhe dava uma boa aparência. Eu tenho o mesmo tom de pele, mesma cor dos olhos e mesmo tipo de cabelo, 1,70 de altura com incríveis 68 Kilos.
— Salve, irmão. — Digo dando um toque de mãos e um beijo na testa do Gu.
— Comprei os tomates, mãe, tá muito frio lá fora, quase congelei.
— Nossa, eu estou quase passando mal de tanto frio. — Disse ela colocando uma panela no fogão.
Voltei pra sala e deitei com o Gu no sofá.
— Guzinho, coloca o Chaves.
O garoto enfiou seu braço por baixo da coberta até conseguir encontrar o controle remoto da TV e colocou no Chaves.
— O que você tem Guzinho? — Dei um beijinho em sua nuca. — Estou com muito frio, Teus. — Respondeu o pequeno, se encolhendo ainda mais.
Não demorou e ouço minha mãe nos chamando para irmos jantar. Era sopa, e combinou muito com a temperatura que estava fazendo.
— Vamos, Gu, levanta — disse, forçando o garoto a sair de baixo da coberta naquele frio de 9 graus.
— Amanhã irei nas agências de emprego logo cedo — disse mãe, enquanto levava uma colher carregada de sopa à sua boca.
— Mateus? Amanhã você vai ao Tetra deixar seu currículo! me falaram que lá aceitam adolescentes com 16 anos — continuou a mulher.
— É, eu vi um monte de garotos da minha idade trabalhando lá — falei, me lembrando dos adolescentes que vi no mercado Tetra.
— Eu vou ficar sozinho em casa? — falou o Gu, olhando nos meus olhos.
— Posso confiar em você, meu amor? — indagou nossa mãe.
— Não queria ficar sozinho — respondeu ele, enquanto colocava ao lado do prato um pedaço de cenoura.
Os dias se passaram, era um domingo a noite e estávamos na mesa de jantar novamente, dessa vez, discutindo nossos horários. Mãe conseguiu uma vaga na Multilaser em horário ADM, eu tinha conseguido entrar no Tetra no segundo turno, Guzinho tinha entrado em uma escola municipal integral, eu estudaria pela manhã no segundo ano do ensino médio. A ansiedade estava a milhão para todo mundo, como seria estudar em uma escola tão diferente da minha? Será que eu teria problemas em fazer novas amizades? Será que eu iria aprender as coisas no trabalho?
— Vamos dormir, meu povo, amanhã será um grande dia para todo mundo — minha mãe disse, levantando da mesa e levando seu prato para a pia.
Acordei com o som do alarme tocando a todo vapor, eram 06:00 e marcava 8 graus o termômetro do celular. Estava acostumado com os 38 graus da Bahia, aquele frio estava me matando, e como sempre morei no sertão, criei um habito de dormir apenas usando uma cueca. Ó pai Ó, deveria ter dormido com 30 calças.
Sai pulando nas pontas dos pés, meu chinelo estava perdido pela casa e eu precisava acordar o Gu para levar ele na sua nova escola. Entrei no quarto do meu irmão tremendo de frio por está apenas com uma peça de roupa, não resisti e entrei para baixo do edredom do menino e o agarrei.
— Guzinho, acorda. — Disse com a voz tremula de frio.
— Vamos Gu, vamos nos atrasar. — Coloquei minhas mãos em seu peitoral e puxei seu corpo junto ao meu.
— AHHHHHHHHH, POHAAAA. — O muleque caiu da cama.
Comecei a rir muito.
— Você parece uma pedra de gelo. — Falou o pequeno vindo ao meu encontro.
Dei um beijo de bom dia no meu irmão e levantei para começar a se arrumar e fazer um rápido café da manhã.
Voltei ao quarto correndo, vesti uma calça moletom, uma blusa toda preta e um casaco cinza. Rapidamente preparei o café da manhã, e comemos juntos. Gu já estava arrumado, apenas dei uma conferida pra ver se ele estava de fato arrumado e saímos de casa.
— Gu, se alguém mexer com você, ou te tratar mal, fale imediatamente ao diretor da escola, e me conte quando chegar em casa. Promete? — Disse colocando meu braço esquerdo no ombro do meu maninho enquanto passávamos em uma calçada qualquer.
— Uhum. — Disse o menino.
Andamos mais um pouco e avistei a escola, tinha outras crianças indo na mesma direção, a maioria sozinhas. Todas com blusas de frio, algumas até com luvas e toucas. Essa cena eu só via em filme.
— Eu venho te buscar, tudo bem? Eu te amo. — Falei já em frente ao portão da escola.— Também te amo, vou sentir saudades. — Disse o garoto.— São somente algumas horas. — Ri do drama.— Vai, entra.
Seja gentil com meu irmão, mundão.
Voltei fazendo o mesmo percurso, mas antes de chegar em casa, virei uma esquina e já fui diretamente para o Tetra Supermercado, eu ia fazer uma entrevista e talvez já começar a trabalhar naquele mesmo dia.
— Me fale uma qualidade e um defeito seu, por favor — disse a moça me entrevistando em uma sala qualquer na administração do Mercado.
— Eu sou muito atencioso e tenho muita facilidade em aprender as coisas, porém, acredito ser muito perfeccionista e esse pequeno defeito já está sendo trabalhado e pretendo obter melhoras futuramente.
— Entendi, bem, Mateus, irei te deixar com o líder e você já vai iniciar no trabalho, seja bem-vindo. — A moça ajeitou seu cabelo com leveza enquanto levantava da cadeira.
— Muito obrigado — levantei também.
— Cristian, esse é o Mateus, é o novo membro da equipe, Mateus esse é o Cristian, seu líder.
— Prazer, Mateus — O homem estendeu sua mão.
— Prazer, Cristian — apertei.
— Preciso que você fique na balança hoje e aprenda o máximo que conseguir.
— O homem coçou a barba enquanto olhava em sua volta.— Claro, posso ir agora? — disse já ansioso.
— Sim, está logo ali, qualquer coisa você vem correndo me falar, Ok? — Pode deixar senhor Cristian.
Sai em passos curtos em direção a balança e lá encontro o mesmo garoto da última vez que estive aqui.
— Bom dia. O Cristian disse que eu deveria ficar na balança hoje. — Cocei a cabeça.
— Bom dia mano. Cola aqui comigo. — Ele abriu uma portinha e entrei no quadradinho.
O garoto, que aparentava ter minha idade, moreno claro com cabelos pretos, o cabelo dele era tipo de cachinhos, uma moda nova eu acho. Seus olhos eram castanhos claros e tinha uma sobrancelha bem alinhada, ele tinha minha altura e uma voz comum, meia rouca.
— Meu nome é Ricardo, e o seu? — Ricardo olhava diretamente nos meus olhos.
— Eu me chamo Mateus. — O olhei de volta.
Continua...
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Comentários (1)
@Mil1000mil1000: Continua
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