Laços de família - Parte 04
Todos dormimos lá, juntos, sem nenhuma vergonha, apertados na cama.
No dia seguinte, acordei e vi que Alisson estava na sala, levantei e falei:
- Bom dia, mano
Foi quando ele me fez um gesto de quem não podia responder, eu não vi que ele estava em chamada de vídeo com o Renan, mas vi o Renan dizendo:
- Nossa situação é ela, as empresas quebraram
Alisson estava sentado na ponta do sofá, sem camisa, com o notebook no colo e o celular na mão, e o Renan falava rápido, daquele jeito de quem já passou dos gráficos e está no desespero:
- Não tem mais como maquiar, Alisson. A primeira quebrou em setembro, a segunda está sustentando a primeira com o que sobrou, e você tem dois empréstimos que vencem antes do Natal. Se você não fizer nada, em fevereiro você não tem nem o que vender.
Alisson: E se eu vender a terceira?
Renan: A terceira é o que te dá fluxo. Vender a terceira é você vender a galinha.
Alisson: E qual é a sua sugestão, Renan? Porque você fala como se soubesse.
Renan: Minha sugestão é você abrir a empresa pra um sócio com capital. Você tem nome, tem carteira, tem contrato. Você não tem caixa. Junta as duas coisas e você sai do buraco em um ano.
Alisson: Sócio?
Renan: Sócio.
Renan: Pensa comigo, Alisson. Você tem uma pessoa na sua frente que faz isso, que tem capital e que te conhece. Você só tem que aceitar que dessa vez você não vai mandar sozinho.
Alisson: Você tá falando do Felipe?
Renan: Eu tô falando do Felipe.
Foi quando a porta do quarto abriu e a Karina apareceu, com o cabelo todo amassado e a cara de quem tinha ouvido tudo. Ela ficou parada no corredor, e o Alisson olhou pra ela e desligou o vídeo na hora, como se desligar o vídeo fosse resolver.
Karina: Eu ouvi tudo... você não ia me contar?
Alisson: Karina, bom dia, você tá com cara de...
Karina: Me conta...
Alisson: Quebraram, Karina. As empresas quebraram.
Karina: Eu sabia que estava ruim... mas não quebrando.
Ele se levantou, foi pra cozinha, ligou a cafeteira e ficou em silêncio.
A Chirley apareceu depois, também enrolada na coberta, e sentou no chão com as pernas cruzadas, olhando a cena como quem assiste novela.
Karina: O Renan falou de sócio. Ele falou do Felipe, né?
Alisson: Falou.
Karina: Então chama o Felipe. Ele é diretor financeiro, ele faz isso, ele conhece gente, ele tem dinheiro e ele te conhece há anos. É literalmente a pessoa certa, Alisson.
Alisson: Não.
Karina: Por quê?
Alisson: Porque ele vai chegar aqui, olhar meus números, fazer aquela carinha de pena e me oferecer ajuda. E eu vou ter que aceitar.
Karina: E o problema é esse? Aceitar ajuda?
Alisson: O problema é que eu montei tudo isso do zero, Karina. Do zero. Eu tinha dezesseis anos, eu carregava caixa em supermercado, você lembra.
Karina: Eu lembro. Você me dava metade do seu salário pra comprar meu material da escola.
Alisson: E foi por isso que eu fiz. Pra ninguém da minha família passar aperto nunca mais. E agora eu vou ter que sentar na frente de um cara de terno e dizer "me ajuda". Eu vou me sentir um fracassado na frente dele.
Karina: Você não é fracassado, seu burro. Só tá sendo orgulhoso.
Ele ficou olhando pro café caindo, sem responder. Aí falou, mais baixo:
Alisson: E tem outra coisa. O Felipe gostava de você quando ele morava por aqui.
Karina: Ele o quê?
Alisson: Assim que ele terminou o noivado com a Marina, ele me perguntou se você era solteira.
A Karina ficou sem palavras por um segundo, e eu vi o Alisson fazer cara de quem já tinha se arrependido de falar.
Karina: E o que isso tem a ver com as empresas?
Alisson: Nada. Esquece.
Karina: Alisson.
Alisson: Tem a ver que eu não quero ficar devendo favor pra um cara que gosta da minha irmã.
Ele saiu pra resolver coisa com o Renan de manhã, e eu, a Chirley e a Karina ficamos na sala, sem ter o que fazer, num sábado, com o apartamento cheio de roupa espalhada e o cheiro daquela noite ainda no ar. A Karina ficou sentada no tapete, com o café esfriando na mão, e a Chirley foi lá, sentou atrás dela e começou a pentear o cabelo dela com os dedos, sem falar nada.
Karina: Vocês acham que eu tô louca?
Chirley: Louca por quê?
Karina: Por estar apaixonada pelo meu irmão. Meu irmão de sangue. Mesma mãe.
Chirley me olhou, e não tivemos resposta.
Karina: Vocês sabem o que é isso? Eu cresci achando que ele era só o meu irmão chato que mandava em mim. Ele me buscava na escola na garupa da bicicleta, e eu morria de vergonha porque ele usava aquela camisa furada, e ele batia nos meninos que mexiam comigo. Ele foi a primeira pessoa que me chamou de "bonita" na vida. Só que era meu irmão, então não valia, né? Bonito de irmão não conta.
Eu: E quando é que passou a contar?
Karina: Eu tive dois namoradinhos... para mim, a vida era normal, eu iria encontrar alguém e ficar na minha, isso até o Alisson começar a namorar, quando ele apresentou a namorada pra gente, eu tive ciúmes, não ciúmes de irmã, ciúmes de mulher. Eu tinha quinze anos, fiquei três dais de cama com dor e chorando, minha mãe achou que era uma crise de ansiedade. E aí eu conheci o Felipe, quando eu o conheci ele estava noivo, não rolou nada... nem tinha como, eu só... só precisei falar com ele sobre minha loja, e ele foi atencioso, carinhoso, e resolveu tudo que eu precisava financeiramente, depois apresentei ele pro Alisson resolver as coisas da empresa, o Alisson fez uma pequena amizade, mas sempre me queria longe do Felipe, agora eu entendo o por quê, bom... o Alisson terminou o namoro, e eu nunca tive coragem de falar nada pra ele, mas pensava nele o tempo todo.
Chirley: E por que você nunca falou?
Karina: Porque se eu falasse e desse errado, eu perdia o meu irmão. E se eu ficasse calada, eu só perdia a chance de namorar ele. Você entende? Perder o irmão é pior do que perder o namorado.
Eu: Karina, você já dormiu abraçada com ele...
Karina: É. E aí a minha mãe apareceu com aquele papo de que os filhos podem nascer deficientes.
Chirley: Isso é besteira.
Karina: Eu sei que é besteira, Chirley. Mas ninguém te ensina o que fazer quando a besteira é a sua vida. Eu amo ele. Não é tesão. Não é costume. Eu amo ele de um jeito que eu fico com medo. E eu vou amar ele mesmo se ele ficar pobre, mesmo se ele perder tudo, mesmo se a gente nunca... se a gente decidir que não pode. Eu só quero que ele saiba. Só isso
Chirley: Karina, o Alisson te ama. Ele não sabe ainda, porque homem é devagar pra essas coisas, e porque ele passou a vida inteira sendo o que resolve tudo, o que paga a conta, o que carrega a família. Ele nunca parou pra sentir. Agora que ele quebrou, ele vai ter que parar. E quando ele parar, ele vai olhar pra você.
Karina: Você acha?
Chirley: Eu vi a cara dele ontem. Ele fodeu com você como quem fode a mulher da vida. Não como quem come a irmã.
Mais tarde, a Chirley foi tomar banho e depois saiu dizendo que precisava ir visitar seu pai no hospital, e me disse baixinho:
- Fica com ela... sem gracinha.
E aí eu fiquei sozinho com a Karina na sala.
Ela estava deitada de lado no sofá, e eu sentei no chão, encostado no sofá, com a cabeça perto da barriga dela. A gente ficou calado um tempo. Aí eu falei:
Eu: Karina.
Karina: Hm?
Eu: Deixa eu ver uma coisa.
Karina: O quê?
Eu: Como é que ficou.
Karina: Você quer olhar meu cu?
Eu: Quero. Fiquei curioso. Nunca vi um cu que passou por aquela rolona.
Karina: Que ridículo, Igor. Eu to aqui falando dos meus sentimentos com sua mulher e você pensando no meu cu?
Eu: Por favor? Não vou contar pra ninguém
Ela riu, se virou de bruços no sofá, e levantou a bunda, a luz vindo da janela bateu direto ali, eu olhei...
Estava diferente, sim. Vermelho em volta, aquele anelzinho de músculo inchado, mais aberto do que antes, com uma cor mais viva, e ainda brilhando um pouco. A buceta dela embaixo, também inchada, com os lábios carnudos. Tudo ali estava com cara de quem levou uma noite inteira de pau grande e gostou.
Eu: Caralho, Karina.
Karina: Tá feio?
Eu: Tá lindo. Bem vermelhinho...
Ela riu, com a cara enfiada no braço. Eu passei o dedo devagar em volta, sentindo a textura, e ela encolheu o corpo e gemeu baixinho.
Karina: Ai... tá sensível.
Eu: Tá doendo?
Karina: Não. É sensível. É diferente.
Eu molhei o dedo na boca e encostei na entrada, empurrando só a ponta. Ela estava ainda frouxinha, cedendo fácil, quente por dentro. A Karina gemeu de novo e empurrou a bunda pra trás, sem querer.
Eu: Você gostou, né?
Karina: Muito. Eu não sabia que era assim.
Eu: Assim como?
Karina: Que era gostoso dar o cuzinho.
Eu tirei o dedo, me levantei, tirei a cueca e me ajoelhei atrás dela no sofá. Passei a mão na bunda dela, apertei, abri, e encostei.
Eu: Deixa eu ver de perto uma coisa.
Karina: O que?
Eu: Se eu caibo.
Ela virou a cabeça pra trás, com os olhos arregalados, e aí riu, e aí falou:
- Isso é traição...
- Ninguém vai chegar agora...
E ela não respondeu, só abaixou a cabeça de novo e empinou mais a bunda, e isso foi a resposta.
Encostei a cabeça do meu pau ali, naquele lugarzinho vermelho e aberto, e empurrei devagar. Entrou fácil, muito mais fácil do que eu imaginava, porque ela já estava preparada por outra pessoa, e isso me deu um tesão estranho, de estar entrando num lugar onde o meu amigo tinha estado horas antes.
Karina: Ai... ai, Igor...
Eu: Tá bom?
Karina: Tá... vai... vai devagar.
Eu fui. Devagar, curto, quase roçando, sentindo cada pedacinho. Ela gemia baixinho, com a mão agarrada no braço do sofá, e eu com as duas mãos na cintura dela, e o apartamento inteiro em silêncio, só o barulho da gente e o barulho da rua lá fora.
E no meio daquilo, do nada, eu falei:
Eu: Karina, ele te ama.
Karina: Igor, você tá fodendo meu cu e falando de amor?
Eu: É que eu tô sentindo isso no seu cuzinho
Ela não respondeu. Só apertou, e gemeu mais alto.
Terminei devagar, com a bunda dela colada em mim, e depois deitei em cima dela no sofá, os dois suando, sem falar nada.
Nos vestimos e ficamos ali deitados abraçados por alguns minutos, depois nos levantamos, comemos algo, e assistimos um filme bobo juntos.
Quando Chirley chegou, nos disse que seu pai recebeu alta e foi apenas um susto.
Descemos pro nosso apartamento e ela disse:
- Amor, podemos conversar?
- Claro...
- Você me disse que chupou a rola do Alisson, como foi isso?
- Foi aqui em casa, naquele dia que ele disse ter encontrado uma vizinha na saída do elevador, não tinha vizinha, é que estavamos aqui, comigo chupando o pau dele... desculpa não ter contado
- Você gostou de chupar?
- Eu to com vergonha de falar disso com você
- Não to aqui pra te julgar
- Eu gostei... gostei sim
- Tá, então me conta direitinho, como foi?
E aí eu contei. Contei tudo, do começo, do elevador, da vergonha, da mão tremendo, do beijo que ele me deu antes, dele me guiando a mão até o pau, do "chupa" sussurrado no meu ouvido. Contei que era pesado, que era grosso, que não cabia direito, que eu babei muito. Contei que fiquei quinze minutos e não cansei a boca, e que quando ele gozou na minha cara eu fiquei parado, com os olhos fechados, sem querer limpar.
- Ele te beijou depois de gozar na sua cara?
- Beijou
- Com a porra na boca?
- Sim...
- Nossa, que delícia...
- Você tá com raiva?
- Não... só não precisava ter sido escondido, mas não to não
- Eu achei que você ia achar estranho.
- Eu? Igor, a gente tá transando com dois irmãos, eu tenho moral pra achar alguma coisa estranha?
- É diferente...
- Diferente como?
- Porque cu e buceta são uma coisa. Pau é outra. Pau é coisa de homem, e eu não sou viado.
- Você tem tesão nele?
- Tenho...
- Tesão de vontade transar, ou tesão de gostar de estar perto?
- Os dois...
- E isso te assusta?
- Um pouco. Assusta porque parece que muda uma coisa em mim, eu nunca gostei de homem, e agora to com tesão nele...
- Você continua gostando de buceta?
- Continuo
- Continua me querendo?
- Muito.
- Então nada mudou, relaxa
Ela se aproximou, ficou de joelhos na minha frente, pegou meu rosto com as duas mãos e me beijou devagar. Um beijo daqueles dela, comprido, com carinho, sem pressa.
- Você não sentiu ciúmes dele?
- Senti um pouquinho. Mas é um ciúme gostoso. É tipo... ele te deu uma coisa que eu não podia te dar. E ele cuidou de você. Ele te beijou depois.
- Amor...
- E eu vou te falar uma coisa que eu nunca falei: eu gosto de te ver com ele. Não é gostar de homem, é gostar de você. Quando você tá perto do Alisson, você fica diferente. Você fica mais mole, mais criança. Você ri mais. Eu vi você ontem à noite. Você tava feliz, Igor.
- Obrigado por entender...
- Da próxima vez, eu quero ver.
Foi no dia seguinte à noite que as coisas começaram a mudar.
O Alisson mandou mensagem no fim da tarde, uma mensagem seca: "Sobem? Preciso falar com vocês." E eu já sabia pelo tom. Ele nunca escreve "preciso falar".
A gente subiu. Karina estava na cozinha, com a mão no balcão, sem fazer nada. Alisson estava sentado no sofá, com o notebook aberto na mesa de centro, um monte de papel do lado, e o celular virado pra baixo. Ele tinha a cara de quem passou o dia inteiro resolvendo coisa e não resolveu nada.
A gente sentou. Ele ficou um tempo olhando pro chão, e aí falou:
- Liguei pro Felipe hoje de manhã.
Karina: E aí?
Alisson: Ele atendeu na segunda chamada. Ficou surpreso. Falou que já tinha visto, que os números estavam na mesa dele desde o mês passado, que o Renan já tinha mandado tudo.
Karina: O Renan já tinha falado pra ele?
Alisson: O Renan é um filho da puta competente... ele conversou com o Felipe sobre a situação das empresas
Eu: E o que esse Felipe falou?
Alisson: Ele quer entrar como sócio. Quarenta por cento, com aporte pra cobrir as dívidas e capital de giro pra um ano. Quer acesso a tudo, e quer que eu apresente o plano de recuperação na sexta, na frente dele e de mais dois caras do fundo dele.
Eu: Você vai aceitar?
Alisson: Eu vou aceitar.
A Karina largou o pano que estava na mão dela e ficou parada no meio da sala, olhando pro irmão. Ele olhou pra ela de volta.
Alisson: Não faz essa cara de pena.
Karina: Não é pena, Alisson. É orgulho.
Alisson: De quê, porra? De eu ter quebrado e ter que chamar gente pra me salvar?
Karina: De você ter chamado. Você podia ficar seis meses fingindo que tava tudo bem, como você fez. Você escolheu falar. Isso é ser homem, não é ser fracassado.
Ele não respondeu. Ficou olhando pra ela, e eu vi a coisa que a Chirley tinha dito acontecendo bem na minha frente: ele parou. Parou de resolver, parou de calcular, e olhou pra irmã dele de verdade, talvez pela primeira vez sem estar correndo atrás de alguma coisa.
Alisson: E se ele virar dono da minha empresa, da minha vida, das minhas coisas?
Karina: Ele não vai virar dono da sua vida, só vai virar sócio da sua empresa, a sua vida só você é dono.
Alisson: É... é verdade.
Karina: Sexta, né? Que horas?
Alisson: Dez da manhã
Karina só acenou positivamente com a cabeça e não falou mais nada, Alisson se virou pra mim e pra Chirley e disse:
- Tem uma coisa que eu preciso preparar vocês
Chirley: O que?
Alisson: Esse apartamento que vocês estão morando, ele está como garantia de um empréstimo que eu fiz, e se por acaso sexta der errado a sociedade com o Felipe, eu vou precisar entregar o apartamento
Eu: Tudo bem... a gente entende
Alisson: Qualquer coisa, vocês ficam aqui comigo
Eu: A gente tá guardando um dinheirinho, não é muito ainda, mas acho que já conseguimos pagar um aluguel
Alisson: Não se preocupem ainda com isso, vamos ver como vai ser essa sexta.
Ouvimos tudo apreensivamente, Chirley e eu não queríamos nos mudar mais dali, claro que já estudávamos pagar um aluguel pro Alisson e até pensávamos na possibilidade de pagar as parcelas do apartamento, mas era foda a sensação de estar "de favor", naquela semana, Chirley e eu procuramos algumas casas para alugar, não visitamos, só olhamos online e víamos o que cabia no nosso orçamento ou não, confesso que as casas eram feias para largarmos o apartamento, e isso nos entristecia de certa forma.
Quando chegou a sexta-feira, fui trabalhar sozinho, Alisson pediu as contas para poder cuidar das suas empresas, ele fez a reunião com o Felipe pela manhã, quando eu cheguei em meu apartamento já a noite, ele me mandou uma mensagem:
"Igor, vem cá, a Karina fez um jantar top!"
Chirley e eu subimos, quando entramos já entramos falando:
- Que cheiro gostoso...
Mas reparei que tinha alguém diferente na sala, o tal Felipe.
Tem gente que ocupa o espaço de um jeito diferente. O Felipe era assim. Alto, ombros largos, camisa social branca com as mangas dobradas no antebraço, cabelo curtinho bem cortado, e uma postura de quem não precisa falar alto pra ser ouvido. Bonito pra caralho, sim, mas não era bonito de academia, era bonito de homem feito, de quem tem trinta e tantos, dorme bem e usa camisa com botão no punho. Ele levantou do sofá quando a gente entrou e veio apertar minha mão.
Felipe: Boa noite. Felipe.
Eu: Igor. Prazer.
Felipe: Prazer é meu. O Alisson falou muito de você.
Chirley: Eu sou a Chirley, prazer.
A Chirley apertou a mão dele e falou "prazer" de um jeito estranho, meio baixo, meio rápido, e foi direto pra cozinha. Eu reparei. Eu reparo nessas coisas.
O Alisson estava irreconhecível. Estava com a camisa social dele também, sem gravata, mas estava falando alto, rindo, indo e voltando pra cozinha, abrindo a geladeira, ajudando a Karina a montar a mesa. Aquela tensão toda que ele carregava nas costas desde que a gente começou a trabalhar junto tinha sumido.
Alisson: Fica à vontade, senta aí, Felipe. Igor, puxa a cadeira pra ele.
Felipe: Eu sei me sentar, Alisson.
Alisson: Eu sei que você sabe, é que eu tô feliz, caralho. Deixa eu ser feliz.
O Felipe riu, uma risada curta e baixa, de quem acha graça mas não faz alarde. Sentou. E eu comecei a olhar pro Felipe de verdade, com atenção, porque eu queria entender o cara.
Ele era sério, mas não era arrogante. Isso é uma diferença que quase ninguém sabe fazer. Sério é quem fala pouco porque está pensando. Arrogante é quem fala pouco pra te fazer esperar. Ele ouvia o que a gente dizia até o fim. Ele perguntou o que eu fazia, e quando eu falei, ele fez uma pergunta de verdade, não uma pergunta de quem já sabe a resposta. Quando a Karina falou de comida, ele falou que a mãe dele cozinhava igual. Quando a Chirley serviu, ele agradeceu olhando nos olhos dela, foi aí que eu comecei a reparar...
A Chirley sentou do lado do Alisson, de frente pro Felipe, e no começo estava normal. Serviu todo mundo, falou da comida, riu de uma piada do Alisson. Aí o Felipe tirou a faca de dentro da guardanapo, e eu vi ela olhar pra mão dele. Mão grande, veias no dorso, unha curta. Ela olhou por três segundos e voltou pro prato. Depois olhou de novo.
Karina: Tá gostoso, Felipe?
Felipe: Tá uma delicia, você aprendeu tudo isso sozinha?
Karina: Sim, sozinha
A Chirley, ao lado, cruzou as pernas. Depois descruzou. Depois cruzou de novo, e ficou com o pé balançando. Ela pegou o copo de água e bebeu metade de uma vez, e aí deixou o copo na mesa um pouco forte demais, e a base fez barulho, e ela ficou sem graça.
Eu: Você tá bem?
Chirley: Tô. Por quê?
Eu: Nada.
Mas eu tinha visto. Ela estava com o rosto mais corado, e o pescoço também, e aquele brilho no olho que eu conheço. Foi o mesmo brilho que eu vi nela na primeira vez que a gente saiu, e na primeira vez que a gente ficou junto depois de um ano de só amizade. Ela estava com tesão. Na frente de quatro pessoas, num jantar, com o marido do lado.
Felipe: Igor, você e o Alisson trabalhavam juntos há quanto tempo?
Eu: Uns oito meses.
Felipe: E você gostava?
Eu: Sim. Ele é chato mas é bom de serviço.
Alisson: Chato nada...
Em um momento a Chirley levantou pra buscar a sobremesa, e eu levantei junto com a desculpa de pegar guardanapo.
- Amor?
- Hm?
- Você tá olhando muito pra esse cara.
- Ele é muito bonito, amor.
- To incomodado
- Desculpa...
Ela não falou mais nada sobre o assunto. Nem no jantar, nem quando o Felipe se levantou. Nem quando ele agradeceu de novo, apertou a mão do Alisson e falou "até segunda, sócio", olhando pro Alisson como homem que fecha negócio. Nem quando ele apertou a minha mão. Nem quando ele apertou a mão da Chirley e falou "prazer enorme, viu?" — e ela falou "igualmente" com a voz dois tons abaixo do normal.
Felipe saiu calmamente, assim que a porta fechou, Alisson começou a comemorar.
Alisson: Deu certo, Karina! Ele assinou, ele depositou metade hoje, a outra metade quando a gente registrar. Ele não entrou pra me passar a perna, ele entrou pra trabalhar. Você viu como ele falou comigo? Você viu?
Karina: Vi sim
Alisson: Eu demiti o Renan...
Karina: Por que?
Alisson: O Felipe viu que o Renan queria me passar a perna...
Karina: Como?
Alisson: No controle do Renan tinha acesso as contas, e ele tirava dinheiro aos pouquinhos, sem ninguém perceber. O Felipe pediu a parte do Renan com o controle.
Chirley: E a gente ainda vai precisar deixar o apartamento?
Alisson: O aporte cobre aquele empréstimo, o apartamento sai da garantia até dezembro. Vocês podem ficar. Pode ficar o tempo que vocês quiserem.
Eu: A gente vai te pagar
Alisson: Não precisa.
Descemos depois de meia hora. A Chirley estava quieta no elevador, olhando pro número dos andares. Entramos, ela foi tirar o sapato, e eu fechei a porta e falei:
- Reparou bem no Felipe, né?
- Ele tinha uma mão bonita, Igor.
- Ah, ele tinha?
- Tinha... tinha sim
Ela me levou pra dentro do quarto, e naquela noite ela me agarrou com mais vontade do que o normal, e eu deixei, e gostei, e no fim ela gozou rápido demais e ficou deitada, com a mão no peito, respirando fundo, olhando pro teto.
- Você tá pensando nele?
- Pensei um pouquinho...
- E o que é que a gente faz com isso?
- Não sei... eu nunca fiquei com tanto tesão em outra pessoa, mas vamos esquecer esse Felipe.
- É melhor.
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Comentários (3)
Julinha: Eu sempre me incomodo com esses caras q não jogam limpo, o Igor não precisava ter comido o cuzinho da Karina escondido, não julgo ela, foi só uma "rapidinha", mas ele por ser casado me dá uma raiva!
Responder↴ • uid:16obf9v6dh8gPH1: O Igor já começou a trair, esse anal com a Karina não ficará por isso mesmo
Responder↴ • uid:e5x5ri44b7iLuanny: A forma que o Felipe apareceu foi melhor do que eu esperava ☺️ estava com saudade dele
Responder↴ • uid:e5x5ri44b7i